terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Brinquedos de palavras

Ela não sabia afinal que o que partilhava com ele eram cartas de amor. De um amor que aconteceria quando dobrasse a próxima esquina. Por não saber ela vivia o tempo da espera. Caminhava a passos lentos atenta a qualquer sinal na paisagem, mas se distraia com facilidade e esquecia o percurso. Acabava inventando outros lugares aonde ir e modos de chegar.
O tempo corria e as cartas se multiplicavam, algumas se perdiam, outras nem eram lidas. Ela não recordava mais para que ou quem escrevia, nem o rumo em que os pés a levavam. E a esquina que ela quase dobrou continuava lá... tão perto! Mas o vai e vem, as bicicletas, a chuva, os encontros, sempre atravessavam o caminho.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Se destilar o ódio
Ajudasse
A arrancar raízes
E o grito
A expulsar a flor


Se o ranger de dentes
Não deixasse então
Nenhum pedaço
E o olhar fulminante
Petrificasse qualquer traço


Seria possível então matar a dor?



quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Último Poema



Já que não posso te tocar
Quero te guardar num poema
Como é difícil de mostrar
Dou-te de presente palavras

Com elas podes inventar
Ter ilusões, imaginar
Tecer paixões
Que podem rumos desviar

Para caminhos
Que não se sabe onde vão dar
E a viagem já é um porto de chegar
Pelas águas do tempo
Em barco que já é lugar

Pelo prazer de não saber
De só deixar acontecer
Quero embarcar contigo
Sem direção, correr perigo
Quero embarcar contigo
Quero navegar

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O que restou


Se queres ferir
E fazer sentir dor
Como se o sofrer
Destruísse o amor

Que não queres sentir
Mas que insiste em voltar
E não deixa esquecer
O que não podes mais viver

É difícil deixar calar ou fingir
E admitir o que perdeu
Dissolveu, dissipou
O calor derreteu
As asas que levaram ao céu

Agora ateu e sem saber
À deriva no mar do acontecer
Lançando ao vento toda a dor
Com flechas de amargura acertou
E enfim as nuvens
Derramam o que restou

sábado, 10 de novembro de 2012

Nós dois


Já sonhei nosso caso de amor
E no dia seguinte esperei
Entre o espelho e a janela
Retoquei o batom
E nada de você
Nem sombra de você

Já pensei
Desisti de pensar
E falei de você
Falei demais
Murmurei
Aquela canção
Que só eu sei
Diz sobre nós dois

Fico tentando adivinhar
O que somos afinal
Faísca ou estopim
Apenas bons amigos
Ou um poema novo
No papel antigo

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

A vontade é de escrever-te todos os poemas
Até a tua desaparição é um triunfo
Como não querer ofertar-te todas as honras?
Quando te vais nos deixa ainda sob teus efeitos
Emudecidos e esperando que algo aconteça...
Afinal o que és?
Um Deus austero que nos castiga às vezes quando te escondes?
Ou bondoso que  nos põe em comunhão para contemplar-te?
Ou serás satã ardendo em fogo?
Despertando o egoísmo dos que acham que podem possuir-te
Para num capricho dar-te a pessoa amada
Ah se eu pudesse tomar um barco
E alcançar-te bem aí onde te deitas...

quarta-feira, 13 de junho de 2012

O Relógio

Caminhando em círculos
Os ponteiros impassíveis
Com seus ruídos discretos
Seguem incessantes
Lembrando a todo instante
Está passando!
Está passando!

Caminhando em círculos
Os ponteiros impassíveis
Com seus ruídos discretos
Seguem incessantes
Lembrando a todo instante
Está chegando!
Está chegando!

                        Maio/2006